Você precisa saber sobre Rastreabilidade.
Segundo a norma ISSO-8402 da International Organization for Standardization, rastreabilidade é “a capacidade de traçar o histórico, a aplicação ou a localização de um item através de informações previamente registradas.” e na enciclopédia virtual livre da web www.wikipedia.com encontramos que “rastreabilidade é um conceito que surgiu devido à necessidade de saber em que local é que um produto se encontra na cadeia logística, sendo também muito usado em controle de qualidade...”. “...a habilidade de se poder saber através de um código numérico qual a identidade de uma mercadoria e as suas origens.”
Essas e muitas outras definições para “rastreabilidade” parecem corresponder inicialmente a apenas mais um termo empresarial ou técnico, mas a “rastreabilidade” e tudo o que ela representa, está cada vez mais presente no nosso dia a dia. Não se trata mais apenas de saber sobre a procedência de partes de um automóvel ou de localizar uma correspondência postal em trânsito. Trata-se de saber de onde vem o alimento que comemos. É assunto preponderante no comércio entre países do mundo todo. Sem um processo de rastreabilidade eficiente, muitos produtos não podem ser exportados, o que reflete diretamente na balança comercial de um país. Interessa saber quem, onde e quando foi semeada uma remessa de soja, por exemplo. Quem a cultivou, colheu, armazenou e embalou. Quem fiscalizou tudo isso. Quais foram os aditivos utilizados. É semente de planta transgênica ou sem qualquer modificação genética.
Os avanços em T.I. (tecnologia da informação, informática), Engenharia Genética, Biologia Molecular e Bioinformática são responsáveis por viabilizar a rastreabilidade de quase tudo o que é vivo e até do que já foi vivo e hoje estão presentes em alimentos como biscoitos sanduíches e sucos. Essas ciências estão em evidência nos nossos dias, a sensação crescente é de que tudo pode ser rastreado e os avanços alcançados até agora não contradizem isso.
Tudo isso pode parecer uma realidade distante do mundo dos criadores de passeriformes, psitacídeos ou aves exóticas, mas definitivamente não é. É certo que as pessoas apaixonadas pelas aves, que as mantém, e que vivem na constante companhia delas, percebem claramente o valor afetivo e o grande prazer que elas naturalmente oferecem. Contudo, essas pessoas podem não estar percebendo claramente outro tipo de valor que o mundo todo vê em suas companheiras: o valor de cada uma delas no contexto da manutenção da biodiversidade mundial. Preservação é a palavra do momento. As pessoas do mundo todo querem garantir a manutenção de toda a forma natural de vida, e isso inclui as nossas aves. Sim, certamente por muito tempo nós, nossos pais, nossos avós nos acostumamos a desfrutar do convívio particular e reservado delas sem ter que prestar contas disso a ninguém, mas agora o mundo todo quer saber em quais condições estamos desfrutando desse convívio. Querem saber se a criação dessas aves está ameaçando a continuidade da existência de sua espécie ou do ambiente natural delas. E quando o mundo todo se une a favor de uma causa, não adianta tapar os ouvidos, os olhos ou a boca, é preciso estar preparado para atender a demanda mundial sob o risco de ser privado por força de lei de manter uma ave consigo.
Uma notícia alarmante é que ainda não estamos preparados para atender a demanda mundial sobre a rastreabilidade das aves silvestres brasileiras. Falta-nos ainda estudar geneticamente as populações de cada espécie e falta-nos também uma legislação adequada. Esse problema é mundial, ocorre em todos os países e com quase todas as espécies. Contudo, no âmbito da biotecnologia muitos esforços estão sendo empreendidos e em breve poderemos contar com a tecnologia a nosso favor. Estamos progredindo no sentido de alcançar para as aves o mesmo nível de segurança e poder de rastreabilidade dos exames de paternidade e genotipagens aplicados rotineiramente em seres humanos. O sistema de rastreabilidade humana hoje é fato nos Estados Unidos onde todos os presidiários têm seus DNAs analisados e a informação gerada é guardada em um banco de dados eletrônico. Quando um deles é libertado e se torna suspeito de um novo crime facilmente pode-se analisar o DNA encontrado nos vestígios biológicos da cena do crime e compará-lo com a informação eletrônica armazenada no banco de dados, sem que seja necessário recorrer a coleta de uma nova amostra do suspeito. Esse sistema americano se chama CODIS (Combined DNA Index System).
Para as aves não alcançamos ainda um nível de segurança e de reprodutibilidade (obtenção dos mesmos resultados em múltiplos processamentos das amostras) que nos permita sequer pensar num sistema parecido. É por isso que o laboratório Unigen Tecnologia do DNA Ltda. e a FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) estão investindo juntos mais de 400 mil reais para concretizar esse objetivo até 2011. Espera-se poder fornecer ao mercado exames de DNA validados para a identificação genética individual, paternidade, maternidade, exames de reconstrução genética (exames onde os pais são falecidos ou ausentes) para pelo menos 5 diferentes espécies de aves silvestres brasileiras.
O fato de não estarmos totalmente preparados para a rastreabilidade e suas atuais exigências não quer dizer que estivemos parados, sem nada fazer para solucionar a questão. Uma análise atenta aos avanços metodológicos que vimos disponibilizando gradativamente desde os anos noventa vai mostrar que passamos pelas mesmas etapas de aperfeiçoamento percorridas pelos exames em humanos, os quais culminaram no CODIS. Sem entrar nos detalhes de cada tecnologia, vamos apenas citar os nomes na tabela abaixo com o simples objetivo de demonstrar a semelhança apontada:
Ordem cronológica das tecnologias utilizadas no Brasil. |
Necessidade de estudo populacional espécie específica ou para diferentes raças |
Humanos |
Aves |
1ª geração: análise de VNTRs com sondas multilocais por southern bloting. |
NÃO |
Utilizada pelos laboratórios de investigação de paternidade nos início dos anos 90. |
Utilizada como rotina pelo laboratório Unigen até 2004. |
2ª geração: análise de VNTRs com sondas unilocais por southern bloting. |
SIM |
Largamente utilizada pelos laboratórios de investigação de paternidade nos anos 90. |
Não foi aplicado em rotina pelos laboratórios. |
3ª geração: análise de STRs em P.C.R. monoplex e posterior eletroforese em gel de acrilamida corada com prata. |
SIM |
Utilizada durante curto período de tempo pelos laboratórios de investigação de paternidade no final dos anos 90 e início de 2000. |
Utilizada como rotina pelos laboratórios a partir de 2004. |
4ª geração: análise de STRs em P.C.R. multiplex e posterior eletroforese em gel de acrilamida corada com prata. |
SIM |
Largamente utilizada pelos laboratórios de investigação de paternidade a partir de 2000. |
Utilizada como rotina pelos laboratórios a partir de 2004. |
5ª geração: análise de STRs em P.C.R. multiplex e posterior eletroforese capilar em seqüenciador automático. |
SIM |
Atual técnica de escolha mundial. |
Objetivo a ser alcançado. |
O futuro, como poderia se concluir numa análise apressada parece trazer novas dificuldades burocráticas para o mantenedor de aves, que cada vez mais deverá prestar contas de sua criação aos órgãos reguladores do setor. Embora esse possa ser um dos lados da moeda, uma análise mais calma indica que também é possível tirar vantagem da situação. Basta perceber que a rastreabilidade aumenta significativamente o valor agregado das aves aos olhos do consumidor final, que a partir de exames de DNA terão garantia absoluta da origem genética das aves adquiridas, em consonância com o espírito de conservação ecológica dos nossos tempos. Saber a procedência genética de uma ave não é interesse exclusivo da comunidade mundial ou de órgãos reguladores, é interesse do criador que cada vez mais precisa manter um plantel de qualidade genética garantida. Lembro da grande resistência e desconfiança dos criadores de passeriformes quando iniciamos a oferecer a eles exames de DNA para sexagem de suas aves. Pouquíssimos aderiram no primeiro ano, mas hoje em dia é difícil encontrar quem não faça tal exame, pois ficou claro para estes que a informação confiável sobre o sexo de sua ave trazia grandes vantagens econômicas para ele, permitindo antecipar a venda dos filhotes.
24 de novembro de 2009.
Por Antonio Francisco Ferreira Neto, biólogo, especialista em biologia molecular pela Unicamp. Fundador e diretor geral do laboratório Unigen Tecnologia do DNA LTDA. Contato: aferreira@unigen.com.br, tel. 11-29791528. |