BRA-057: Terras dos papagaios

Alegres e falantes, eles ganharam fama já no Descobrimento e chegaram a ser sinônimo de Brasil. Mas estão desaparecendo pelas mãos dos traficantes...

Eles ocorrem em praticamente em todos os ecossistemas brasileiros, mas sem se misturar. É como se cada espécie tivesse escolhido uma casa e adotasse hábitos exclusivos para ser diferente do vizinho. Dentre quase 80 espécies de psitacídeos que habitam o Brasil, cerca de 13 podem ser chamadas de papagaio. Destas, uma vive no mangue (Amazona amazonica); uma vive no cerrado (A. xanthops); uma prefere campos mais abertos (A ocrocephala); outra habita as matas de araucária do sul (A petrei); outra escolheu as matas de restinga entre o Sul e o Sudeste (A. vinacea); outra ainda só é encontrada nas várzeas da Amazônia (A festiva) e assim por diante, desfilando uma bela diversidade de preferências. A espécie menos exigente é o chamado papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), originalmente espalhado pelas matas úmidas e palmeirais, do Nordeste (Piauí) ao Rio Grande do Sul e norte da Argentina. É tido como o mais falador e, por isso mesmo, uma das espécies mais pressionadas pelo tráfico de animais silvestres.

A estratégia dos papagaios brasileiros de não se misturarem foi uma maneira de assegurar disponibilidade de alimento. Eles evitam, assim, as competições entre semelhantes, já que o bico poderoso - capaz de funcionar como um alicate e quebrar os coquinhos mais duros para ganhar a nutritiva polpa de recompensa - lhes dá vantagem sobre outras aves e roedores, mas os deixaria empatados entre si, se fossem disputar as mesmas áreas. A estratégia foi boa, também, para garantir a disponibilidade de locais propícios para nidificar, já que eles não fazem ninhos de gravetos, mas dependem de ocos de árvores para abrigar sua prole. E ocos de árvores não são exatamente abundantes, mesmo numa área de vegetação intacta. Mas a especialização acaba funcionando contra a conservação, quando se tem, de um lado, uma imensa pressão de coleta para comercialização e, de outro, a destruição sistemática de hábitat.

Se nos restringirmos a chamar de papagaio apenas as espécies do gênero Amazona falamos de animais com 32 a 38 centímetros, com a cor verde predominante, cauda curta de penas quase do mesmo comprimento. O que mais se diferencia, na aparência, é o papagaio-moleiro (A farinosa), que chega aos 40 centímetros, tem cauda mais longa e o dorso todo coberto por um pó branco muito fino, que o deixa acinzentado. Habitante de matas altas e extensas, do norte do Mato Grosso, Pará e Maranhão, é uma espécie bastante ameaçada pelos desmatamentos.

Em média, um casal de papagaios na natureza produz de 3 a 8 ovos, embora nem sempre criem todos os filhotes. Os traficantes retiram tanto os ovos como os filhotes do ninho, com alto índice de perda (segundo a Renctas 36% dos charões traficados morrem antes de serem vendidos). Tanto o pai como a mãe cuidam dos filhotes. O tempo médio de permanência no ninho é de 2 meses, após os quais estarão aptos a voar e falar. Todos os papagaios tem habilidade de imitar vozes de outras aves e mamíferos - homem inclusive - mas a variação na disposição em falar varia muito, não só de espécie para espécie, como de indivíduo para indivíduo. Uma coisa, porém, é certa: ao contrário do que reza a lenda popular, tanto macho como fêmea falam. "Tem muito papagaio adulto e com muitos anos de vida que recebeu nome de macho só porque fala. E agora, com a popularização da sexagem por análise de DNA, os donos estão descobrindo que o louro é loura", comenta Renato Severi, criador comercial de São Paulo.

A habilidade em falar já era destacada nos primeiros relatos de europeus sobre o Novo Mundo, no Século 16. Brasilia sive Terra dei Papagalli (Brasil ou Terra dos Papagaios) era como os primeiros mapas de espiões italianos grafavam o nome do nosso País, conforme consta nos Diarii de Sanuto (*). A família dos psitacídeos era bem conhecida, naquela época, pelas espécies da África e Ásia levadas à Europa. Havia um comércio intenso dessas aves de aparência diferenciada, que freqüentavam os jardins mais nobres. Mas as araras vermelhas e os papagaios verdes oriundos do Brasil superaram a fama dos outros, causando agitação na corte e uma verdadeira corrida à costa brasileira.

A referência aparece logo no primeiro documento, na Carta de Pero Vaz de Caminha, enviada de volta ao reino de Portugal logo após o Descobrimento, junto com alguns espécimes, trocados com os índios: "Resgataram lá por cascavéis e por outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse".

Também nas cartas do Padre José de Anchieta, os papagaios são destaque, não só pela aparência, mas por seu comportamento inteligente. Anchieta escreve, em 1554: "Quanta seja a diversidade de aves, ornada de cores variegadas, não é fácil explicar. Os papagaios, mais abundantes do que aí os corvos, são de diversos gêneros, todos se podem comer, uns ajudam a prender o ventre, outros imitam vozes humanas. Quando voam em bando para comer milho já espigado procedem de modo que, enquanto estão a comer, sempre fica um ou dois no cimo duma árvore como de atalaia, vigiando todos os lados; se vêem aproximar alguém dão sinal de retirada e todos fogem; se não há perigo, aqueles quando estiverem fartos sobem, e descem os vigias a comer".

Diversos outros registros dão conta do embarque de papagaios para a Europa. Nicolas de Villegagnon teria recolhido, em apenas 15 ou 20 dias de negociações com índios brasileiros da nossa costa, cerca de 3 mil papagaios, depois disputados com Portugal na corte internacional que discutiu os bens da "França Antártica" (ocupação francesa no Brasil, de 1555 a 1560).

Os tempos são outros e os meios de transporte também. Mas o tráfico de papagaios e a disputa internacional sobre esse patrimônio vivo da biodiversidade brasileira continuam na ordem do dia. Segundo Carlos Yamashita, especialista em psitacídeos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama-SP), menos de 1% dos papagaios mantidos em residências como mascotes hoje são legalizados e a estimativa é de que sejam comercializados cerca de 30 mil dessas aves por ano, a maioria retirada da natureza.

Os dados do Ibama conferem com uma pesquisa feita pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) em parceria com o Ibope, segundo a qual mais de 30% da população das regiões Norte e Centro-Oeste têm animais silvestres em casa e os papagaios são maioria (dois terços do total). "Infelizmente temos muitas espécies de papagaio ameaçadas de extinção devido ao comércio ilegal. Isso é um processo cultural que precisamos mudar. Quem acha que amar uma espécie é enjaulá-la tem que rever seu conceito!", enfatiza Dener Giovanini, presidente da Renctas. Enquanto essa mudança cultural não acontece, a solução é tornar o comércio legal, com a aquisição apenas de animais nascidos em cativeiro. "Já existem criadores comerciais autorizados nas principais cidades do País", assegura Yamashita. A questão é conscientizar o consumidor e encontrar meios de tornar o produto de tráfico arriscado demais para ser aceito.

(NOTA DE RODAPÉ)

(*) Os Diarii de Sanuto reúnem, em 58 volumes, a correspondência dirigida às autoridades da República de Veneza, desde 1486 até 1533 por embaixadores, diplomatas, espiões e informantes.

(BOX 1)

(REMOVED BY CM. SIDEBAR BY OTHER AURHTOR)

(BOX 2)

OCOS EM FALTA

Embora sejam cavadores e não apenas ocupantes de espaços disponíveis nos ecossistemas, como bem nos lembra Ivan Sazima, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os papagaios precisam de algumas facilidades para instalar seus ninhos em ocos de árvores. O diâmetro da árvore é importante, pois precisa ser suficiente para abrigar os pais e a prole. A madeira não pode ser muito dura: embora tenham bicos poderosos, os papagaios não podem desgastá-los demais. E a preferência é por buracos já começados, que o casal alarga e aprofunda o suficiente para manter seus ovos e filhotes fora do alcance de predadores.

Nas florestas, cerrados e caatingas originais, árvores velhas abrigavam toda a legião de papagaios que nidificavam em nosso território. Com a exploração madeireira, o corte seletivo para lenha e a fragmentação da vegetação natural, porém, os ocos escassearam. Mesmo nas poucas áreas restauradas, aonde a mata voltou a crescer, o diâmetro dos troncos hoje ainda não é suficiente para atender às necessidades dos papagaios e araras. Os maracanãs e periquitos já têm exigências menores e algumas espécies até conseguem recorrer a outras soluções, como 'condomínios' sob ninhos de tuiuiús, no Pantanal (caturritas), ou cupinzeiros e casinhas abandonadas de joão-de-barro (tuins).

A falta de ocos para nidificar chega a constituir um risco de extinção local para algumas espécies, em hábitats excessivamente explorados. É o caso do papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e do papagaio-de-peito-roxo (A. vinacea), ambos de distribuição restrita ao norte do Paraná e sul de São Paulo. Este último vive principalmente na Mata de Restinga, onde os ninhos eram feitos nos troncos de caixeta, que sofreram grande pressão de corte seletivo. A madeira da caixeta é utilizada na fabricação de vários utensílios domésticos e lápis.

Alguns programas de conservação de ONGs - como a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), no Paraná - tentam contornar a falta de ocos com ninhos artificiais, feitos com caixas de madeira. Só em setembro último a SPVS pendurou 60 desses ninhos para os papagaios-de-cara-roxa.

(BOX 3)

PAPAGAIO LEGAL

Ter um papagaio em casa não precisa ser crime ambiental. Comprar um filhote legalizado dá trabalho e não é barato, mas é possível. E pode vir até com um imenso diferencial: pelo menos um criador de São Paulo já se associou a biólogos para adestrar os jovens papagaios e vender aves 'bem educadas' no seu palavreado e acostumadas a atender a comandos e chamados, mesmo quando soltas em casa, fora da gaiola.

"O primeiro passo do interessado em adotar um papagaio é se perguntar se está disposto a assumir uma companhia que exige cuidado permanente e carinho durante muitos anos", recomenda Renato Severi, primeiro criador comercial a se instalar em São Paulo de acordo com a legislação atual, com registro do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desde 1999. "É como escolher um cachorro de companhia. Só que o cachorro vive cerca de 10 a 15 anos e o papagaio, entre 50 e 60", observa Carlos Yamashita, do Ibama-SP. Se a decisão é mesmo de ter um papagaio, o segundo passo é procurar um criador comercial ou uma loja de animais (pet shop) com registro no Ibama. O animal deve estar anilhado - com uma anilha que não pode ser retirada e onde esteja gravado o número da ave. O vendedor deve fornecer um documento de identidade, uma espécie de RG, que acompanha obrigatoriamente a ave onde quer que fique ou aonde seja levada - em casa, em viagens, no veterinário ou qualquer outro lugar. Sem esse documento em mãos, o proprietário pode ter sua ave apreendida.

O custo mínimo de um papagaio legalizado é de R$ 600,00 a 700,00 e os jovens bem treinados podem chegar a R$ 3.000,00. Um preço alto para quem está competindo com o fruto de roubo da natureza, cujo custo para o traficante é próximo de zero. Em compensação, a compra de um criador registrado garante que a ave seja de fato um papagaio - muitos vendedores inescrupulosos arrancam as penas de periquitos adultos e os vendem como filhotes de papagaio -, além de estar numa condição sanitária melhor. Como diversas outras aves silvestres, os papagaios podem ser portadores de bactérias como a Clamidia sp., transmissível para o homem e causadora de uma doença com sintomas semelhantes aos da pneumonia, que pode ser fatal, se não diagnosticada a tempo.

"Pensando em todas essas questões, criamos a marca Papagaio Legal. E a partir do próximo ano, além das exigências legais e da sexagem por DNA, que já fazemos, venderemos papagaios com teste negativo de zoonoses (doenças transmissíveis para o homem), já acostumados ao convívio com o homem e adestrados", conta Severi. Para isso, o criador se uniu a dois zootecnistas, que farão o adestramento dos filhotes. "Já fizemos um teste com um casal de papagaios, esse ano: eles aprenderam a falar bom dia quando a gaiola é descoberta, de manhã, além de diversas outras frases. Também atendem comandos e pousam no ombro de quem os chama, com um assobio".

(INFO)

PARA SABER MAIS:

Amazoo (www.amazoo.com.br), do criador Renato Severi - (11) 4611-0572 Email: renasco@uol.com.br